Côn. José Geraldo Vidigal – O cristão e a Santidade

Ao cristão, como, aliás, a todo ser racional, cumpre ser testemunha do Invisível e do Inefável, ícone da santidade de Deus que é a fonte e a razão de ser de toda perfeição. A busca da santidade não um projeto utópico. Trata-se de orientar para Deus todos os movimentos e as raízes do ser humano. Tal a ordem divina no Antigo Testamento: “Sereis santo para mim, porque eu, o Senhor, sou santo” (Lev 20,26). Na plenitude dos tempos Jesus determinou a seus seguidores: “Sede perfeitos, como o Pai celeste é perfeito” (Mt 4,48). Ele, porém, veio a este mundo para ensinar a ser santo, por ser Ele o santo por excelência, como proclamara o Profeta Isaías: “O Santo é o seu nome” (Is 57,15). O Verbo de Deus se encarnou, tomando uma alma e um corpo humanos para traçar os caminhos da santidade, Ele o santo, o verdadeiro, como fala o Apocalipse (Ap 3,7). A Segunda Pessoa da Trindade santa, fazendo-se carne e habitando entre nós quis, assim, santificar a natureza humana, não para se conservar isolado nessa Santidade única, mas para participá-la a seus irmãos. Os cristãos seriam santos “em Cristo Jesus”, expressão tão usada por São Paulo. Estariam incorporados Àquele que assim saudamos: “Só vós sois Santo, só Vós sois Senhor, só Vós, o Altíssimo, Jesus Cristo”. No momento do batismo se torna o fiel membro de Cristo que o faz participar de Sua própria morte para, ao receber a água batismal, lhe dar parte na Sua gloriosa ressurreição. É a vida nova de que fala São Paulo aos romanos (Rm 6,4-11). É lógico que o batismo não age como uma operação mágica que transformasse o batizado sem determinar nele uma transformação integral. Com efeito, incorporado ao divino Salvador, partícipe de Sua santidade, terá que viver como Cristo, ou seja, animado por Seu espírito, numa identidade total a Ele. Foi o que aconteceu com o Apóstolo: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20). É preciso, então, que se tenha consciência desta união com Jesus, o que alertou São Paulo: “não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo”? (1 Cor 6, 15). Na prática, é preciso então ao cristão dominar “a carne”, ou seja não apenas as paixões lascivas do corpo, mas também os movimentos desregrados da alma. São Paulo aos Gálatas detalhou o que isto significa: “fornicação, impureza, desonestidade, luxúria, idolatria, malefícios, inimizades, contendas, ciúmes, iras, rixas, discórdias, partidos, invejas, homicídios, embriaguez, orgias e outras coisas semelhantes” e acrescentou claramente: “quem as praticarem não herdarão o reino de Deus”. Os que agem segundo o espírito de Jesus possuem a caridade, o gozo, a paz, a paciência, a continência, a castidade”. Acrescentou o meio para que se evite tudo que mancha a alma e esta possa cultivar os frutos espirituais: “Os que são de Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências” (Gl 5, 15-25). Deve-se então concluir que sem o domínio do corpo não há santidade e esta não existe sem passar pela cruz. Quem quiser ser santo tem que se mortificar, mas esta mortificação deve ser necessariamente fruto de um grande amor a Jesus Cristo. Isto porque a vida sem pecado, ilibada, é apenas um aspecto negativo da santidade. De fato, ações positivas só podem fluir da dileção Àquele que é o caminho, a verdade e a vida e que se imolou no Calvário levada pelo seu imenso amor pela humanidade. Foi o que lembrou São João: “Ninguém tem maior amor, do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15,13). Assim, a santidade consiste em amar como Jesus amou. Amar é preferir. É sacrificar suas preferências para aderir o seu Senhor. É envolver na dileção mais profunda os irmãos. Como isto se dá no cotidiano, foi minudenciado pelo Apóstolo: “A caridade é paciente, é benigna; a caridade não é invejosa, não se ufana, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesse, não se irrita, não suspeita mal. Não folga coma injustiça, mas alegra-se com a verdade Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13,4-7). Esta deve ser a trajetória dos membros do Povo Santo de Deus e é a única maneira de se obter a salvação eterna. Não existe distinção entre ser salvo e ser santo. Tudo isto leva à edificação do Corpo Místico de Cristo, como ensina ainda São Paulo, “até que alcancemos todos nós a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de homem perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4,13)..

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

Fonte: Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Local:Mariana