Fé e escândalos

O gesto da renúncia de Bento XVI desmascara as intenções veladas ou declaradas daqueles que pretendem manter-se no poder a serviço de si mesmos, a qualquer custo. A atitude do pontífice, desapegado de si, lúcida, transparente, sem palavras calculistas ou diplomáticas, desmonta eventuais esquemas mistos de disputas pelo poder e controle das finanças. Após ter sido logrado com a subtração de documentos sigilosos de seus aposentos pelas mãos de um mordomo, Bento se agigantou corajosamente diante de suspeições e denúncias de escândalos, somados aos que a mídia tem divulgado fartamente, expondo a Igreja à desmoralização e ao escárnio.

Não se tem acesso ao anunciado “Vatileaks”, um dossiê resultante da apuração ou comprovação de eventuais escândalos. Qualquer tessitura a respeito do que não se conhece seria um lance imprudente e leviano. Cabe ao próximo Papa e ao seu colégio de consultores, os cardeais, continuarem a rigorosa apuração dos fatos, seguida da responsabilização pelos mesmos. A Igreja Católica tornou-se vulnerável. Não poderá jamais se esquivar dos questionamentos polêmicos inevitáveis que ora se sucedem.

Diante do desapontamento por parte dos cristãos e dos não cristãos, resta o caminho da conversão a Jesus Cristo e o compromisso para com o Evangelho. Diante de erros ou escândalos, não há senão a via segura da restauração da verdade comprometida pelo contra-testemunho da hipocrisia. Bento se referiu a isso na Quarta-feira de Cinzas, em sua homilia. De forma clara, João Paulo II afirmou que bastaria um, entre os escândalos sexuais, cometidos por algum religioso, para ferir no âmago a santidade da Igreja.

Dentre as virtudes que a Igreja apregoa encontra-se o desapego de si, referindo-se à prática da virtude da pobreza, da castidade e da obediência. O nosso contra-testemunho, na qualidade de ministros consagrados, demonstra nossa vulnerabilidade. A fragilidade humana compromete a credibilidade e a confiança que ficamos a merecer dos fiéis. Questiona-se, ainda, a sinceridade do diálogo que a Igreja deve manter junto às instituições e setores da sociedade, incluindo outras denominações, cristãs ou não.

Na missão de bispos, de padres, de religiosas(os), de fiéis cristãos, sentimos a necessidade de permanente conversão aos valores do Evangelho de Jesus, em busca da superação das contradições e conflitos de interesses que não estejam de acordo com o Evangelho. A fé cristã não arrefece. Se muitos humanos não conseguiram acabar com a Igreja, deve-se ao fato de que ela seja assistida pelo Espírito Santo, seu verdadeiro guia. O que nós, católicos, não podemos aceitar de maneira alguma é levar as coisas pelo viés da alienação ingênua ou tapar o sol com a peneira da hipocrisia.

Seria contraproducente esbravejar contra a mídia que (admitamos), em certas ocasiões, tende a generalizar os fatos ou espetacularizá-los, ainda que comprovados em escala menor. A fé dialogue e se encarne nas realidades autônomas com as ciências, com o mundo da política e da organização social, da economia, da cultura, das outras crenças e de valores vividos na presente mudança de época histórica. A verdade de fé abre questões e não se fecha aos questionamentos inevitáveis.


Dom Aldo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba