A MELHOR VIDA É A DO VIZINHO

Como nos enganamos, muitas vezes, quando deixamos de valorizar os bens que recebemos de Deus e a nossa capacidade de gerenciar a nossa vida! Quantas riquezas possuímos, quantos tesouros enterramos.
Quanto você daria pelos seus olhos? E por suas pernas e pés? Por seus braços, mãos e dedos? Por um dedo? Por uma filha, um filho, uma neta, um irmão, uma sobrinha? Por sua família? Por sua capacidade de se locomover – ir e vir –? Cuidar-se? Há alguma riqueza que possa igualar a esses valores?
Quantos cegos, surdos, mudos, coxos, inválidos encontramos em nosso caminho!
E, pior ainda, quantas vezes, somos nós mesmos cegos, surdos, mudos, coxos, inválidos, incapazes de sairmos de nós para aceitar o encontro com o outro.
Existe coisa mais gostosa de ouvir do que: “senti tanto. Senti saudade de você”! E se a recíproca é verdadeira, esse encontro vira festa.
São coisas simples como um olhar bem olhado, um cheiro bem cheirado, um sorriso de boca, dentes e olhos brilhantes que nos fazem sentir que viver vale a pena. Só não é feliz quem vive sonhando em ganhar na sena, de preferência, sozinho. Porque pessoas assim não têm tempo para corresponder a esse olhar, receber ou dar esse cheiro e muito menos sorrir com o corpo todo para alguém que nunca viu.
Há pessoas que quando você chega e cumprimenta: bom dia! boa tarde! boa noite! mal lhe respondem e ligeiro tiram a vista e se escondem, olhando no vazio procurando alguém distante. Quem está perto incomoda, sempre é melhor evitar uma conversa chata ou coisa do gênero…
Cada dia fico mais impressionada com a sofisticação dos meios de comunicação, eles se esmeram tanto em trazer para perto as pessoas que estão longe, que as pessoas mais próximas ficam sem espaço vital para se comunicar. É uma tortura. Fico maluca. Chego a me sentir um fantasma, ou um zero à esquerda, quando me confronto com alguém próximo como aquela máquina tortura na mão. Não adianta reclamar. Você é taxada de chata, metida etc.
Portanto, resolvi aceitar que a melhor vida que tenho a viver é a minha. E o melhor tempo que tenho é agora. Nada de reclamar que vida boa é a do vizinho, tempo bom era aquele. Pode até ter sido um tempo bom, mas melhor do que hoje, do que agora, duvido. Naquele tempo eu pouco sabia das coisas que hoje sei. Amadureci no dia a dia ao longo dos meus setenta e quatro anos e aprendi muitas coisas. De tudo que aprendi, não posso esquecer que o melhor está por vir. Pois é, a esperança faz com que cada dia seja melhor que o outro.
Você já reparou, pode parecer que não, mas se olharmos bem, prestando bem atenção, a cada dia aprendemos uma lição. E entre todas as pequenas e grandes lições que aprendi, sobressai-se: que ninguém é tão perfeito que não possa melhorar, nem tão pobre que nada tenha para doar. E por aí vai.
Por isso, posso afirmar que muito melhor que a vida do vizinho é a minha vida, porque, essa sim, posso partilhar.
 

Por Izabel Alencar (Consagrada de Aliança da Consolação Misericordiosa)